10/09/2008

Allende, o Último Discurso

“A História é nossa, e fazem-na os povos”
O Presidente Allende, em 11 de Setembro de 1973


Por Léo Lince
O último discurso de Salvador Allende é um documento político magnífico. A transmissão realizada pela Rádio Magallanes - às nove horas e dez minutos da manhãã do fatídico dia 11 de setembro de 1973 - foi o registro de um acto de grandeza. O pano de fundo da gravação era o ruído da força: os estampidos do bombardeio golpista, a correria e os gritos na trincheira de resistência no Palácio de La Moneda. A voz de Allende, no entanto, era serena e firme, quase atemporal. Ele tinha, no foco da tragédia, a consciência nítida de que falava para a posteridade.

Há um nexo pleno de significados entre a fala solene do presidente assassinado e um outro documento, igualmente trágico, que ocupa lugar de destaque na política brasileira: a carta testamento de Getúlio Vargas. El nombre del hombre muerto pode ser outro, mas ambos sabiam que estavam saindo da vida para entrar na história. Os processos podem ser distintos, mas os inimigos listados nos dois casos são os mesmos: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação interna para, pela via do golpe de força, recapturar o poder de seguir reproduzindo seus privilégios. São as "aves de rapina" que sempre sugaram "as veias abertas da América Latina".

É curioso notar que o clima de extrema tensão em que foi pronunciado não contagia a forma nem crispa o conteúdo do discurso. Há uma enorme ternura nas palavras dirigidas aos setores populares que davam sustentação ao governo da Unidade Popular. Quanto aos golpistas, os "generais rasteiros", Allende lança o repto superior da condenação moral. No ponto alto do discurso estão palavras que valem ser citadas em negrito: "Não vou renunciar! Colocado nesta encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que foi plantada na consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser ceifada definitivamente. Eles têm a força, poderão nos avassalar, porém não se detêm os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos". Uma rara e preciosa súmula de coragem, dignidade e fé na vida.

A lucidez de quem sabia estar fazendo o último discurso assume tons de Neruda na conclamação final: "seguramente, a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Seguirão me ouvindo. (...) Sigam sabendo vocês que, muito mais cedo do que tarde, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor". No dia seguinte ao assassinato de Salvador Allende, corria o mundo os versos fortes do grande poeta andaluz, Rafael Alberti: "Ontem, no Chile, morreu um homem/ Hoje mesmo, milhares de outros já se levantam/ A morte não acaba nada!" Verdade. Passados 30 anos, o carrasco que comandou os esquadrões da morte é escorraçado por onde passa, enquanto a voz do presidente martirizado ecoa cada vez mais forte. Nunca esqueceremos, companheiro Allende, o seu último discurso.

Audio: O último discurso de salvador Allende


Primeiro marxista eleito

Fora o próprio presidente Salvador Allende quem recusara terminantemente as reivindicações da extrema esquerda de armar os operários. Ele, o primeiro marxista a ser eleito democraticamente como chefe de Estado e de governo de um país ocidental, acreditou profundamente e durante muito tempo na força da preservação dos valores e tradições democráticos.

Não tinha ele sido conduzido ao poder até mesmo com os votos dos democrata-cristãos? Não tinha ele próprio nomeado o general Augusto Pinochet como chefe do Exército e, assim, comandante-em-chefe da maior das três armas?
Mas o mesmo Pinochet tornara-se o líder do golpe militar de 11 de Setembro, que surpreendeu a opinião pública mundial não apenas pela sua brutalidade. O Chile sempre fora tido como um exemplo de situação democrática estável, à qual também os militares se submetiam. Mesmo o presidente Salvador Allende acreditara até o final na lealdade dos seus oficiais.

Poucas semanas antes do golpe militar, Allende descrevera o Chile marcado pelo seu governo com grande orgulho: "Um país no qual a vida pública está organizada por instituições civis, as quais se apoiam em Forças Armadas com um elevado grau de formação profissional e permeadas de profundo espírito democrático; um país de quase dez milhões de habitantes que produziu dois portadores do prémio Nobel de Literatura dentro de uma única geração, Gabriela Mistral e Pablo Neruda, ambos filhos de simples trabalhadores".


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